O “primo” de Serra sumiu das manchetes

Gregorio Preciado, ligado à propina paga por Pasadena, é um dos novos focos da Operação Lava Jato. Ele é casado com uma prima do senador José Serra, os dois tiveram um terreno em sociedade em São Paulo e Preciado doou para a campanha de Serra para o Senado em 1994. Ok, aparentemente não há nada de errado aí. Exceto pelo tratamento dado pela imprensa. Vamos aos dados:

Em 2010, Preciado foi um dos que teriam tido o sigilo quebrado em 2010. Quando Serra resolveu explorar isso na campanha eleitoral, a Folha noticiava Gregorio Preciado como primo de Serra. Há pelo menos 7 notícias creditando-o dessa maneira. De 2011 para cá mais nenhuma notícia do site do jornal o chamou de primo de Serra. As (apenas) duas notícias que ligam o senador a ele dizem que ele é marido da prima de Serra. Essa é a informação correta, é verdade. Mas por que quatro anos atrás, quando interessava, eles eram primos?

Enquanto isso, Luis Claudio Lula da Silva, filho de Lula, segue nas manchetes (sempre acompanhado do aposto “filho de Lula”). De 2011 para cá foram 74 notícias com o termo “filho de Lula” no site da Folha. Aliás, elas continuarão agora que o relatório final da CPI descarta investigar Luis Claudioserra1?

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Pra botar impeachment nas manchetes, Folha cria factoide e faz pesquisa só com seus leitores

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A Folha de S.Paulo divulgou em sua capa uma pesquisa a respeito do cenário político atual. Acontece que os entrevistados são apenas os próprios leitores do jornal. Assim, os dados tendem a não refletir a real opinião da população brasileira, uma vez que os perfis dos dois públicos são bastante diferentes. Dessa maneira, a pesquisa pouco contribui para o aprofundamento do debate e acaba por alimentar um sentimento golpista, que não encontra sustentação em acusações formais.

Um dos pontos essenciais a se destacar quanto à pesquisa é o perfil do público entrevistado.  O dados mais importante é que 59% dos leitores da Folha votaram em Aécio Neves no segundo turno,  enquanto apenas 22% escolheram Dilma. Metade dos entrevistados tem renda familiar mensal superior a dez salários mínimos, 76% têm ensino superior e 83% são da região Sudeste. Os dados contrastam com a realidade brasileira. Se considerarmos que o rendimento familiar mensal  do brasileiro é de 5,32 salários mínimos, que somente 10,8% dos brasileiros têm ensino superior completo e que apenas 41,9% dos brasileiros estão na região Sudeste fica evidente que o perfil do entrevistado está distante do brasileiro médio.

Mesmo assim, o resultado do levantamento – feito pelo Datafolha com 733 leitores do jornal nos dias 18 e 19 de setembro e 2 e 3 de outubro, com ENORME margem de erro de 4 pontos para mais ou para menos – mostra que a crença na efetivação do impeachment é menor do que a Folha gostaria. Enquanto 51% dos entrevistados defendem que a Câmara dos Deputados deveria abrir um processo de impeachment, 37% acham que Dilma será de fato afastada. Já a renúncia da presidenta é defendida por 61% dos leitores de Folha . Obviamente, o jornal optou por destacar o último número em suas manchetes.

Para que serviria, então, uma matéria como esta? Ela parece apenas refletir aquilo que já se sabe: o desejo do impeachment parte majoritariamente de uma elite, especialmente aquela que votou em Aécio Neves. Mais que isso, ela inflama golpistas que, ainda que não acreditem que Dilma será afastada, visto que não há sustentação para tal, acham que a Câmara deve entrar com o processo. Esta matéria serve para colocar o impeachment  como manchete de jornal – por mais artificial que ele seja.