Por que Temer esperou 5 anos e um pedido de impeachment pra decidir que era decorativo?

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Michel Temer, vice-presidente da República, conseguiu fazer o que não fez nos últimos 5 anos: apareceu. E apareceu já quebrando a internet com a #CartaDoTemer, uma cartinha pessoal à presidenta Dilma que, ops, foi parar nas mãos da imprensa. Vai saber como essas coisas acontecem, né?

Temer já começa pelo fim. “(Este) é um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo”. Evidentemente. Se Temer estava incomodado com o seu papel no governo, por que esperou CINCO ANOS e uma crise política  para se manifestar?

“[…] não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade”. Pior que agora meio que precisa, né? Primeiro porque correu a se reunir a portas fechadas antes mesmo de Cunha aceitar o pedido de impeachment para discutir substituições. Segundo porque não apareceu no pronunciamento de Dilma sobre o impeachment, tampouco compareceu a reuniões da base sobre o tema. Pelo contrário, encontrou com Alckmin e a cúpula do PMDB. Aliás, não custa lembrar que Temer sempre foi aliado do PSDB, e apoiou Alckmin contra Lula nas eleições de 2006.

Ele segue “Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB”. Temer há de perdoar se existe desconfiança (se é que existe) em relação a um partido que deixa crescer dentro de si figuras como Cunha.

Depois ele continua com lamentações de falta de confiança da presidenta em relação a ele e ao partido, e o que segue é uma verdadeira obra literária. Temer reclama de Dilma por não ter priorizado seus amigos na hora de indicações para cargos no governo. Isso mostra que, mais do que o orgulho ferido de alguém que deveria, neste momento, se posicionar pela defesa da democracia, estão na mesa as ambições de um homem que pensa no poder pelo poder, preterindo até mesmo a própria legenda.

Ainda na primeira frase, Temer reclama de ser um “vice decorativo”. Até Picciani, deputado líder do PMDB na Câmara, respondeu a essa afirmação. “Se Michel Temer era vice decorativo, por que quis manter a aliança?” Outro feito do qual se gaba: de batalhar para manter a aliança controversa entre PT e PMDB.

Se eras tão decorativo, ó, Temer, por que demoraste 5 anos e um pedido de impeachment para reclamar? Por que fazer isso em público? Por que vazar a carta logo para a GloboNews? Para azar de Temer, ele virou piada. Sua cartinha magoada é quase tão ruim quanto as manobras chantagistas de Cunha. Estamos vivendo uma eterna 5ª série.

Abandonar o amigo ferido em uma hora de extrema instabilidade política não é só uma traição a Dilma, é trair o Brasil e todos os brasileiros, na medida em que trabalha para reforçar o clima instável do “quanto pior, melhor” e não se posiciona na defesa da democracia, mas sim na simpatia ao golpe.

Pra botar impeachment nas manchetes, Folha cria factoide e faz pesquisa só com seus leitores

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A Folha de S.Paulo divulgou em sua capa uma pesquisa a respeito do cenário político atual. Acontece que os entrevistados são apenas os próprios leitores do jornal. Assim, os dados tendem a não refletir a real opinião da população brasileira, uma vez que os perfis dos dois públicos são bastante diferentes. Dessa maneira, a pesquisa pouco contribui para o aprofundamento do debate e acaba por alimentar um sentimento golpista, que não encontra sustentação em acusações formais.

Um dos pontos essenciais a se destacar quanto à pesquisa é o perfil do público entrevistado.  O dados mais importante é que 59% dos leitores da Folha votaram em Aécio Neves no segundo turno,  enquanto apenas 22% escolheram Dilma. Metade dos entrevistados tem renda familiar mensal superior a dez salários mínimos, 76% têm ensino superior e 83% são da região Sudeste. Os dados contrastam com a realidade brasileira. Se considerarmos que o rendimento familiar mensal  do brasileiro é de 5,32 salários mínimos, que somente 10,8% dos brasileiros têm ensino superior completo e que apenas 41,9% dos brasileiros estão na região Sudeste fica evidente que o perfil do entrevistado está distante do brasileiro médio.

Mesmo assim, o resultado do levantamento – feito pelo Datafolha com 733 leitores do jornal nos dias 18 e 19 de setembro e 2 e 3 de outubro, com ENORME margem de erro de 4 pontos para mais ou para menos – mostra que a crença na efetivação do impeachment é menor do que a Folha gostaria. Enquanto 51% dos entrevistados defendem que a Câmara dos Deputados deveria abrir um processo de impeachment, 37% acham que Dilma será de fato afastada. Já a renúncia da presidenta é defendida por 61% dos leitores de Folha . Obviamente, o jornal optou por destacar o último número em suas manchetes.

Para que serviria, então, uma matéria como esta? Ela parece apenas refletir aquilo que já se sabe: o desejo do impeachment parte majoritariamente de uma elite, especialmente aquela que votou em Aécio Neves. Mais que isso, ela inflama golpistas que, ainda que não acreditem que Dilma será afastada, visto que não há sustentação para tal, acham que a Câmara deve entrar com o processo. Esta matéria serve para colocar o impeachment  como manchete de jornal – por mais artificial que ele seja.

As instituições que articulam o Golpe de Estado no Brasil

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Por onde passa a mão do Golpe? Cada dia, é uma articulação diferente para derrubar o governo democraticamente eleito. Golpe, sim, porque Dilma não tem sequer UMA ACUSAÇÃO formal que pese sobre ela, ao contrário da maioria daqueles que bradam pela sua queda.

O golpe é estruturado em cinco eixos e inúmeras ramificações. Comecemos com a Câmara dos Deputados, cujo presidente, Eduardo Cunha, já afirmou que não cai antes de Dilma cair. Além de conduzir um dos períodos de maior retrocesso na história da redemocratização do país, Cunha é acusado de corrupção e é investigado pelo governo suíço por manter contas no exterior para lavagem de dinheiro. Cunha, vale dizer, é muito próximo da turma de deputados que encabeça a lista dos deputados formadores da Frente Pelo Impeachment. A maioria deles já foi acusada por algum tipo de crime ao longo da vida política.

Passemos, então, para o TSE. O órgão surpreendeu com a notícia de que reabrirá um processo movido pelo PSDB para impugnar o mandato de Dilma e do vice, Michel Temer, por suposto abuso de poder político e econômico na eleição de 2014. O processo foi arquivado e, assim, como num passe de mágica, reaberto em plena ebulição de fatores orquestrados pelo Golpe. Coincidência? Dificilmente. A alegação do PSDB é de que Dilma teria recebido “financiamento de campanha mediante doações oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobras como parte da distribuição de propinas”. Esse ponto é muito curioso, já que Aécio também recebeu doações dessas empresas para a campanha de 2014. Desde que estejam declaradas ao TSE, isso não é crime. Por que, quando é para Aécio, a doação é patrocínio. E, para Dilma, é propina? Lembremos também que o próprio TSE apontou “inconsistências” na prestação de contas do próprio Aécio Neves.

Em seguida, o TCU que, pela primeira vez em décadas, assinala que rejeitará as contas da presidência do ano de 2014. As tais pedaladas aconteceram a rodo durante o governo Fernando Henrique Cardoso, por que não houve audiência por parte do Tribunal de Contas da União? Mas a pior parte da história não é essa. O governo teve que pedir o afastamento do relator do processo, Augusto Nardes, por seu posicionamento parcial e partidário e suas declarações descabidas à mídia acerca do processo. Vale lembrar que Nardes é suspeito de receber propina na Operação Zelotes, que apura fraudes e supostas compras de decisões no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. No dia anterior ao julgamento das contas de Dilma, teve uma reunião amigável com ninguém mais ninguém menos que Aécio Neves. Além de Nardes, o ministro Raimundo Carreiro é formalmente investigado em inquérito aberto no STF para apurar acusações feitas pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, de que teria feito pagamentos par ser beneficiado em processo no TCU sobre a usina nuclear Angra 3 – o beneficiário final seria o ministro. Também o ministro Vital do Rêgo é formalmente investigado no STF desde junho deste ano por suspeita de compra de votos.

Em quarto lugar, temos os indignados seletivos tentando ocupar as ruas, diferentemente dos movimentos sociais, que dela nunca se ausentaram na luta diária por mais direitos aos pobres, trabalhadores e oprimidos. Quem também ocupa as ruas desta vez é cria direta, da mídia, e do que existe de mais reacionário e fascista na oposição ao governo, ao PT e a toda a esquerda. São os formados pelo Jornal Nacional, a Revista Veja e os Revoltados Online, que envergonham a democracia ao pedir a volta da ditadura militar, o golpe e a morte “dos comunistas”.

Por fim, alguém que ocupa um papel principal nesse tecido que é o caminho do Golpe no Brasil: a imprensa, o quarto poder. Todo mundo sabe que quem tem informação, tem poder. Os donos da informação, que usam o recorte que bem entendem, têm MUITO poder. São eles que compactuaram com o Golpe de 84, contra um comunismo fantasioso. São eles que repetem o mesmo discurso fantasioso para justificar um golpe em 2015 e um ódio não velado à esquerda e aos pobres. É essa mesma imprensa que manipula dados, fatos e imagens, que faz coberturas e textos seletivos, que inflama o povo e o cala com a mesma facilidade, apenas para atender a seus próprios interesses. São os donos desses veículos de imprensa alguns dos homens mais ricos do mundo, que atuam junto aos Estados Unidos contra os governos de esquerda da América Latina, pela entrega das nossas riquezas naturais e pela vitória do capital sobre a humanização da sociedade.

Juntos, esses cinco dedos formam uma mão implacável, que bate sem afagar e extrapola, em muitos momentos, suas funções pela certeza da impunidade e do poder absoluto. Juntos, esses dedos formam um cartel poderoso que ameaça a democracia conquistada por nós a duras penas, sem nenhum remorso, porque têm seus interesses particulares em primeiro lugar. São eles que nos oprimem e tentam nos calar e sufocar à força. Mas que saibam, eles são cinco, nós somos milhões. Não cairemos sem luta. E não vai ter Golpe.